OS ENCONTROS

Luzo Reis Out/2019

O projeto Santos da Baixada lança olhares para as tradicionais festas de santo dos municípios da Baixada Cuiabana. A partir de uma pesquisa fotográfica que teve início em 2014 e ocorreu até 2019, o projeto percorreu 9 municípios da Baixada Cuiabana registrando um total de 19 festas. A ideia surgiu a partir de um encontro que tive com o fotógrafo Antônio Siqueira durante um curso de fotografia documental oferecido pelo renomado fotógrafo José Medeiros. O curso foi realizado no município de Rosário Oeste, localizado a 100km da capital Cuiabá e reuniu cerca de 10 fotógrafos. Na ocasião, logo fui apresentado à Siqueira pelo professor. Lembro que Medeiros me disse: “Luzo, não conhece Antônio Siqueira!? Uma lenda da fotografia de Mato Grosso!”. Antônio, com seu jeito simples e de câmera em punho respondeu: “claro que conhece, a gente é primo!”. Qual foi minha surpresa em descobrir que aquele primo distante, que eu não encontrava há anos e do qual eu tinha apenas uma vaga recordação de sua fisionomia na memória, era fotógrafo dos bons havia mais de duas décadas!

A partir daquele encontro retornei diversas vezes a Rosário Oeste a convite de Antônio para fotografarmos juntos festas de santo. Antônio é personalidade já conhecida por todos na cidade. Desde a década de 1990, ainda com câmeras analógicas, ele registra não apenas as festas de santo, mas todo o cotidiano da pacata cidade do interior mato-grossense. Com um acervo gigantesco de imagens da cidade e de sua gente, Antônio é um daqueles fotógrafos de antigamente que acompanha e cria imagens do cotidiano da sua comunidade com a paixão de quem vê na humildade, na deferência e nos trejeitos despojados de seu povo atributos de uma vida virtuosa que alia trabalho duro com momentos de partilha, fé e alegria. Não é com nenhum demérito, nem nostalgia, que observo esse anacronismo em Antônio. Em uma época de velocidade, em que somos constantemente demandados pela correria da cidade grande e da internet, encontrar tempo é nosso maior desafio. Nesse sentido, Siqueira é um privilegiado por poder se dedicar há tanto tempo a esse projeto de observar e criar imagens da sua cidade e de seu tempo. Lembro do próprio Zé Medeiros na ocasião me dizer: “Antônio mora no paraíso! É aqui que as coisas acontecem!”.

De fato, desde o curso e das idas posteriores a Rosário fiquei deslumbrado com tudo o que vi. Mesmo sendo cuiabano e vindo de uma família de forte tradição rural, há muito vivia a vida de citadino da capital. As festas que meus avós organizavam na fazenda, as rezas em homenagem a São Miguel estavam lá no fundo da memória, mas a rotina de estudos, de trabalho, os afastamentos que a modernidade promovem não apenas em mim, mas nos homens da cidade, as transformaram em relíquia. Acho que está aí a diferença entre a minha fotografia e a de meu primo. Enquanto para mim todo esse universo, todo esse tempo ritual de memória viva que essas festas promovem possuem um encantamento exótico, para meu primo elas compõe o ritmo de sua existência. Fico pensando sempre em como esse trabalho fotográfico revela essas temporalidades distintas. Creio que foi a curiosidade que foi crescendo em mim de encontrar esse mundo novo, tão próximo e ao mesmo tempo distante, que impulsionou a proposta que fiz a meu primo para transformarmos as festas de santo em objeto de pesquisa. Nossa ideia era viajar em busca desse tempo, tão presente ainda hoje nas cidades de nossa baixada.

Nossa escolha prioritária foi pelos festejos menores, aqueles classificados pelo escritor Roberto Loureiro (2006) como festas de santo rurais e de família. Tratam-se de festas em homenagem aos santos de devoção das famílias que possuem longa tradição na cultura dessas cidades. Uma das principais características desses festejos é que a sua realização não segue, na grande maioria das vezes, os ritos canônicos da igreja católica, apesar de receberem seu apoio. Em geral, elas datam de muitos anos e surgiram de promessas feitas aos santos católicos como forma de agradecimento a bençãos recebidas, normalmente relacionadas à saúde de entes queridos. Reflexos de um tempo onde a fé era o único recurso contra males que a ciência desconhecia ou simplesmente não alcançava nos rincões do país. Desse modo, os agraciados pagam suas promessas realizando anualmente uma grande festa na qual convidam sua comunidade para rezar e celebrar a dádiva alcançada. Mesmo passado muito tempo, essas festas persistem. Algumas, como a festa de São Sebastião da família do Seu Arquimedes (Seu Médinho), em Barão de Melgaço, foram herdadas pelas novas gerações que mantém a tradição. Segundo os relatos dos familiares, a festa já possui mais de um século e foi prometida em virtude de uma “mortandade” de animais e pessoas da fazenda. Alcançada a benção, acredita-se que a festa deve ser realizada anualmente sem falha, sob risco de que alguma “desgraça” aconteça. Como no ano em que a festa não ocorreu e uma briga de touros destruiu a capela onde ficava a imagem do santo. Outra característica importante dessas festas é que elas são um espaço de encontro, festa e partilha. Em sua grande maioria as refeições são ofertadas gratuitamente a quem aparecer, os preparativos feitos a muitas mãos por festeiros que se dedicam por dias no arranjo de comidas, construção de empalizados ou enfeites da casa do anfitrião para realização dos bailes e do altar, entre outros arranjos. Nos dias das festas são os cururueiros e os puxadores de reza (também conhecidos como capelães) que dão o tom solene. Em outros momentos, acontecem os bailes, leilões e outras atividades profanas que tornam esses festejos locais de muita diversão para todos que participam. É também essa mistura de momentos que tornam as festas de santo ricas e que talvez expliquem sua longevidade. Naturalmente que muitas coisas mudaram e nosso projeto não tem a pretensão de mapear todas essas mudanças. Tampouco de realizar um registro exaustivo de todos os festejos e de todas as suas etapas. Tal missão nos seria impossível. Em nossa pequena amostra, mais do que registrar a atualidade dos festejos de santo, procuramos criar uma imagem desse tempo ritualizado que, para aqueles que são da cidade grande como eu, parece tão distante ou tão longe dessa Cuiabá cosmopolita que nossa cidade tem se tornado. Não se trata tampouco de promover uma imagem nostálgica, mas de apresentar que esse ritmo e essa vida continuam pulsando forte e constituem parte importante de nossa cultura.

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